terça-feira, 18 de março de 2008

.por isso que gosto dele...


... porque pensamos de forma quase igual...





... e porque muitas vezes traduz o que eu sinto.

segunda-feira, 17 de março de 2008

.pouco por hoje...

"Porque eu sou do tamanho daquilo que sinto, que vejo e que faço, não do tamanho que os outros me enxergam"

[carlos drummond de andrade]
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[eu diria que principalmente do que sinto...]
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não sei por que, mas hoje empaquei [sim, mula] lendo um livro... comecei três vezes e parei.
algo de errado acontece...
[de mim para mim mesma: "ana, vai numa livraria urgente."]

quarta-feira, 12 de março de 2008

.isso tem vários sentidos...

Procura-se uma casa
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Admiro as pessoas que vivem a vida inteira na mesma casa. Tenho almejado isso secretamente, mas por uma fatalidade estou sempre mudando. Quando me mudo para uma nova casa, tenho a sensação de que vou ficar ali para sempre. E é nesse estado de espírito que vivo nas casas.
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A casa precisa ser natural, cair bem, como um paletó cortado no alfaiate. Precisamos nos sentir bem dentro dela, ainda mais agora, que as autoridades admitiram a nossa cotidiana guerrinha civil. (...)
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Estou de mudança. Mais uma vez, na minha vida, estou de mudança. A perspectiva da mudança causa em mim sentimentos indefinidos, uma mistura de medo, euforia, excitação, coragem. Há o sentimento de perda, claro, vou perder a minha vista para as ilhas, para as chuvas que vêm do infinito, para a imensidão oceânica, vou perder o meu jornaleiro, o Dinho, vou perder os meus porteiros a quem tanto me afeiçoei, o seu Jonas, que lava meu carro, o seu Expedito, o Pará, a escadaria que dá nas figueiras seculares, o barulho do vento, a serena ordem da minha biblioteca, o Corcovado, e tudo o que construí pra sempre agora naufraga no irremissível. Mas assim é a vida.
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E tenho de decidir para onde me mudarei. Vou botar um anúncio no jornal: Procura-se uma casa com janelas, vizinhos discretos, clara e arejada, com sol da manhã no pé da cama, um sótão de onde se possa ver a lua em fevereiro (mas também em agosto e dezembro), e as estrelas por uma clarabóia. Procura-se uma casa em que caibam os meus livros, tantos e tão poucos, as minhas velhas cadeiras de vime, os meus castiçais acesos, e vinhos, o meu silêncio e o meu amor, a minha insuportável queda para a felicidade, o tédio, a insatisfação e a melancolia. Uma casa com uma boa cozinha onde se possa conversar sussurrando com o homem amado, uma janela dando para o quintal, onde eu possa ver as crianças correndo, crescendo, e o tempo passando como sempre, inexorável e eterno.
...
[ana miranda. O Dia - Rio, 14 ago. 1999]

terça-feira, 11 de março de 2008

.quase eu

"Eu triste sou calada
Eu brava sou estúpida
Eu lúcida sou chata
Eu gata sou esperta
Eu cega sou vidente
Eu carente sou insana
Eu malandra sou fresca
Eu seca sou vazia
Eu fria sou distante
Eu quente sou oleosa
Eu prosa sou tantas
Eu santa sou gelada
Eu salgada sou crua
Eu pura sou tentada
Eu sentada sou alta
Eu jovem sou donzela
Eu bela sou fútil
Eu útil sou boa
Eu à toa sou tua."
[martha medeiros]

sexta-feira, 7 de março de 2008

.escritura*

Escribo menos de lo que veo
Y veo bastante menos de lo que hay.
Sin embargo sería suficiente
tomar un haz de palabras
y salir a errar
por la página en blanco
sin perder de vista
que el mundo es largo
pero nunca el único.

[Teresa Calderon* - poetisa chilena]


[e como dizia Mário Quintana:
"E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa."]

quarta-feira, 5 de março de 2008

.de uma história triste... e logicamente linda.

Demorei [porque ando deveras ocupada] mas terminei de ler O Caçador de Pipas. Ainda não consegui ver o filme mas, como já disse, normalmente os livros são melhores... têm mais detalhes.
E dele tirei três pedaços... pequenos, mas com muito significado.
[na verdade, tem muitas partes legais, e eu queria ter sublinhado meio livro, só que, como não me pertence, não o fiz. - apesar de que o dono sempre faz isso com os dele.]

"Quando eu estava na quarta série, tinha um mulá que nos dava aulas sobre o islã. Chamava-se mulá Fatiullah Khan. Era um homem baixinho e atarracado, com o rosto todo marcado de acne e uma voz rouca. (...) Certo dia, ele disse que o islã considerava a bebida um pecado terrível; aqueles que bebessem teriam de responder por esse pecado no dia do Qiyamat, o Dia do Juízo. Naquela época, beber era coisa bastante comum em Cabul. Ninguém seria chicoteado em praça pública por esse motivo, mas os afegãos que bebiam não o faziam em público, por uma questão de respeito. (...)

Estávamos no escritório de baba, a tal "sala de fumar", quando eu lhe disse o que o mulá Fatiullah Khan tinha nos ensinado na aula. Baba estava se servindo de uísque no bar que tinha mandado fazer no canto da sala. Ele me ouviu, assentiu com a cabeça, tomou um gole da bebida. Depois, sentou no sofá de couro, deixou o copo de lado e me pôs no colo. (...)
- Pelo que vejo, você está confundindo o que aprende na escola com a educação de fato - disse ele com sua voz grave.
- Mas se o que ele disse é verdade, você não é um pecador, baba?
- Humm. -- Baba trincou um cubo de gelo com os dentes. - Quer saber o que seu pai acha sobre essa história de pecado?
- Quero.
- Pois então vou lhe dizer, mas, primeiro, entenda bem isso, e entenda de uma vez por todas, Amir: você nunca vai aprender nada que preste com esses idiotas barbudos.
(...)
- Pouco importa o que diga esse mulá; existe apenas um pecado, um só. E esse pecado é roubar. Qualquer outro é simplesmente uma variação do roubo. Entende o que estou dizendo?
(...)
- Quando você mata um homem, está roubando uma vida - disse baba. - Está roubando da esposa o direito de ter um marido, roubando dos filhos um pai. Quando mente, está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia, está roubando o direito à justiça. Entende?"

***

do trecho de uma carta:
"Mas espero que pense bem nisso: um homem que não tem consciência, que não tem bondade, não sofre."

***

sobre uma criança magoada por uma promessa quebrada:
"É assim que as crianças lidam com o terror. Adormecem."

[me identifiquei, porque era justamente isso que eu fazia...]

segunda-feira, 3 de março de 2008

.solilóquios

tem palavras estranhas que a gente pode passar a vida inteira sem usar, ler ou escutar...
e ontem eu me deparei duas vezes com uma dessas.
[vai saber porquê???]

a primeira vez foi num poema de um escritor chileno...
e a segunda foi no meu tradicional ócio noturno, lendo "O caçador de pipas" [aliás, muito, muito, muito bom... não vi o filme, mas normalmente o livro costuma ser melhor, nesses casos.]

então, vamos aos solilóquios...
[definição: s.m. 1. V. monólogo. 2. aquilo que cada um diz, falando consigo mesmo.]

e de onde eu tirei isso....

"Las reglas de la evasión

Acumulación de lamentos, palpitaciones, penitencias, doble tropiezo.
Consolaciones del desterrado, apuros, apetencias, bolero andaluz.
Fisura de espíritus, tropelías, soliloquios, aire perdido.
Orgullo del mediocre, apología, coartada, cómodo recurso.
Ley del menor esfuerzo, anuencia, fatalismo, tragedia moral."


[Tito Alvarado - poeta chileno]

e do livro...

(...)"A bacia fraturada e todas as complicações que o general teve por conta disso - como pneumonia, septicemia, a estada prolongada em uma clínica - acabaram com os intermináveis solilóquios de khala Jamila sobre sua própria saúde. E deram início a outros tantos sobre a do general." (...)


e eu descobri que sou uma adepta de solilóquios!

[que coisa mais inútil... falta de coisa melhor - e tempo - para postar hoje...]