quarta-feira, 2 de abril de 2008

.mas como eu ia dizendo...

... bem, a poesia foi uma pequena pausa no meu blog.
[um, dois... voltando à realidade]
Eu tenho mais um montão de crônicas daquele livro da Martha pra colocar aqui. A dificuldade em escolher continua, mas essa aqui é algo de muito especial:


Todo o resto
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"Existe o certo, o errado e todo o resto." Esta é uma frase dita pelo ator Daniel Oliveira representando Cazuza, em conversa com o pai, numa cena que, a meu ver, resume o espírito do filme que esteve em cartaz até pouco tempo. Aliás, resume a vida.
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Certo e errado são convenções que se confirmam com meia dúzia de atitudes. Certo é ser gentil, respeitar os mais velhos, seguir uma dieta balanceada, dormir oito horas por dia, lembrar dos aniversários, trabalhar, estudar, casar e ter filhos, certo é morrer bem velho e com o dever cumprido. Errado é dar calote, repetir o ano, beber demais, fumar, se drogar, não programar um futuro decente, dar saltos sem rede. Todo mundo de acordo?
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Todo mundo teoricamente de acordo, porém a vida não é feita de teorias. E o resto? E tudo aquilo que a gente mal consegue verbalizar, de tão intenso? Desejos, impulsos, fantasias, emoções. Ora, meia dúzia de normas preestabelecidas não dão conta do recado. Impossível enquadrar o que lateja, o que arde, o que grita dentro de nós.
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Somos maduros e ao mesmo tempo infantis, por trás do nosso autocontrole há um desespero infernal. Possuímos uma criatividade insuspeita: inventamos músicas, amores e problemas, e somos curiosos, queremos espiar pelo buraco da fechadura do mundo para descobrir o que não nos contaram. Todo o resto.
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O amor é certo, o ódio é errado, e o resto é uma montanha de outros sentimentos, uma solidão gigantesca, muita confusão, desassossego, saudades cortantes, necessidade de afeto e urgências sexuais que não se adaptam às regras do bom comportamento. Há bilhetes guardados no fundo das gavetas que contariam outra versão da nossa história, caso viessem a público.
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Todo o resto é o que nos assombra: as escolhas não feitas, os beijos não dados, as decisões não tomadas, os mandamentos que não obedecemos, ou que obedecemos bem demais - a troco de que fomos tão bonzinhos?
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Há o certo, o errado e aquilo que nos dá medo, que nos atrai, que nos sufoca, que nos entorpece. O certo é ser magro, bonito, rico, educado, o errado é ser gordo, feio, pobre e analfabeto, e o resto nada tem a ver com esses reducionismos: é nossa fome por idéias novas, é nosso rosto que se transforma com o tempo, são nossas cicatrizes de estimação, nossos erros e desilusões.
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Todo o resto é muito mais vasto. É nossa porra-louquice, nossa ausência de certezas, nossos silêncios inquisidores, a pureza e a inocência que se mantêm vivas dentro de nós mas ninguém percebe, só porque crescemos. A maturidade é um álibi frágil. Seguimos com uma alma de criança que finge saber direitinho tudo o que deve ser feito, mas que no fundo entende muito pouco sobre as engrenagens do mundo. Todo o resto é tudo que ninguém aplaude e ninguém vaia, porque ninguém vê.
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Hoje li uma frase do Nietzsche que questiona: "Você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?"
Fiquei pensando... cheguei à conclusão que não sei. Acho que o que mais to vivendo é todo o resto. E eu ainda tenho muitas arestas pra aparar...

2 comentários:

Christiano disse...

Assunto complicado e cheio de polêmicas... certo e errado o que é? até que ponto estamos com a idéia certa? Aí depende muito de cada pessoa... cada um tem sua consciência... Eu por exemplo procuro sempre fazer o que acho certo na questão mais humana minha com as pessoas, não sei se estou agindo certo... mas meu principio básico é fazer o bem para os OUTROS. Pelo menos penso assim... mas acho que uma coisa é certeza... tudo tem um Limite... em algum ponto...

Besos Chris

.ana disse...

concordo plenamente.
acho que o certo e o errado são guiados pela nossa consciência. mesmo a pior pessoa do mundo, lá no fundo, escondido, soterrado, abafado... tem uma consciência gritando.

tem dias que erramos.
tem dias que acertamos.
mas acho que o que mais importa é chegar ao final, olhar pra trás e poder se sentir leve.

e assim a gente vai... enlouquecendo.