sábado, 13 de fevereiro de 2010

.para distrair...

...crônica do carpinejar publicada na zero hora de ontem [e que também está no blog dele]. muito boa, como de costume.

.o maior sedutor

"O homem delira com as possibilidades de um protetor solar. Sonha ser abordado por uma desconhecida na praia. Ela deitada, sozinha e indefesa, com mínimas peças, implorando com voz rouca de tele-sexo:

– Por favor, não alcanço minhas costas, me ajuda?

Mas o mesmo garanhão não é capaz de atender ao pedido recém feito pela própria mulher. Não sustenta nenhuma fantasia com quem já dorme. Faz a contragosto, com desleixo e obrigação. Realmente envergonhado da tarefa diante dos amigos. Esfrega ao invés de passar. Como se o creme branco e cheiroso fosse um rosado e pegajoso caladryl.

– Calma, amor, senão me queimo.
– Queimado está meu filme.

Não serão os movimentos imaginados e circulares de esponja, mas gestos econômicos e rudes de lixa. Deseja se livrar da incômoda tarefa o quanto antes.

Macho acredita que seduz somente fora do casamento. Quando se fixa demoradamente numa jovem, quando pisca o olho a uma estranha, quando dá em cima de uma beldade, quando examina a bunda de uma gostosa. Confia que flertar e soltar indiretas são suficientes para garantir seu domínio territorial. Sua tese é parecer disponível em tempo integral, ainda que comprometido.

O conceito masculino é esquisito, feito de verdades parciais. Há sutilezas inacreditáveis em seu raciocínio. Não enxerga problema em pular a cerca desde que não visite a casa. Alega que não tem segundas intenções, mas troca sorrisos abobados com terceiras.

Suas desculpas mudam de acordo com o contexto.

Grande parte dos varões erra na arte da conquista. A falha é reforçar a caricatura, confundir ficha corrida com reputação, cair na cilada de provérbios populares como “fama de rico e comedor não se desmente”.

Carrego, portanto, a certeza de que o maior sedutor não é o malandro, não é o esperto, mas o monogâmico. O fiel. O que tem olhos apenas para sua a patroa.

Ele não pescará decotes mais profundos na vizinhança. Deslizará protetor em sua mulher, com calma oriental, comovido, o olfato sinceramente interessado. Acompanhará as mãos com o corpo. No fim, se aproximará dos ouvidos para sussurrar uma barbaridade. O arrepio feminino produzirá um maremoto de cangas nas proximidades.

Não precisa de mais nada para chamar atenção, toda a praia estará suspirando por ele. Abrirão uma comunidade no Orkut para homenageá-lo.

Nada mais ostensivo e perigoso do que um homem amando sua esposa.

Ninfetas, trintonas, lobas e septuagenárias vão se derreter por aquele barbado gentil e romântico. Vão concluir que ela é uma felizarda. Vão arrastar as pálpebras e tirar binóculos da bolsa para acompanhar detalhes de perto.

Diferente da piada, a fofoca nunca vem inteira, ocorre em capítulos:

– Meu Deus, ele puxa a cadeira.
– Repara como ele a acompanha nas caminhadas?
– Não desgruda um minuto da mão dela!
– Foi buscar água de coco. Não duvido que sirva café na cama.

A conclusão é que ele alcançou a glória, certo?

Não, ainda é uma decisão precipitada. O público feminino não se apaixona pelo homem, mas pela mulher do sujeito. Pretende estar em seu lugar. Ocupar sua posição. Desfrutar de igual admiração. O início do amor é sempre lésbico, depois é que pode ficar heterossexual.

Não custa avisar. Cuide de sua mulher antes que ela se interesse pela vida de outra esposa."

.

5 comentários:

Diz ela disse...

Muito bom!
Muitos homens deveriam ler isto hehehe
Beijo, Aninha!

Prity disse...

Eu não conhecia. Ameiii!!!!!!

Lorde disse...

Asssim...
O imenso problema desse texto/teoria é que as mulheres procuram sim os homens casados mas mais ainda, os malandros. Conheço poucas mulheres que, se conhecerem algum homem que seja fiel, carinhoso, romântico, querido etc etc vão se interessar nele.
Claro...talvez eu tenha conhecido só mulheres erradas...mas nesse contexto, não terá o escritor do dito texto somente observado o lado dos malandros? Conheço pelo menos quatro nomes que seriam "bons maridos"...

.ana disse...

lorde...
as teorias quanto a relacionamento são tão relativas... cada caso é um caso, não se pode fazer julgamentos sem conhecimento de causa.
mas, acho que, na vida de quase todo mundo, chega o momento de querer "sossegar o facho", ter um pouco de estabilidade e uma boa parceria do lado... uma relação mais tranquila, sincera, respeitosa. os "malandros" aos quais te refere tem lá seu charme, mas não servem para outra coisa a não ser se divertir [assim como os homens não vão querer uma vadia pra ser mãe dos filhos deles... a não ser que sejam meio pirados!]. vale pela diversão, pela aventura, pelo mistério... por aquela coisa de "ter" e dali a pouco não "ter" mais nada. uma mulher que pensa um mínimo não vai escolher um desses para casar e ter responsabilidades mais sérias. pelo menos, não uma mulher em sã consciência.
acho que ele se refere a estas... que já passaram da fase das loucuras, e que procuram por um parceiro que as respeite e admire de verdade. ou seja, que as ame pura e verdadeiramente. [e nossa, admito: como isso é raro!!! conheço pouquíssimos casais que poderiam ilustrar o que acabei de dizer...]
hoje em dia as relações andam descartáveis demais.

Eu,Pamela Gama. disse...

Gostei, e acho que cada palavra não deixa de ser verdade,pois tanto cavalheirismo em um homem só, é algo muito raro hoje em dia, e isso atrai atenção de qualquer pessoa.