quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

.dicionário para crianças

Mais uma dela, ainda...
[sim, ela mesma, uma overdose aqui no meu blog, mas é que - como praticamente tudo em minha vida - eu preciso consumir meus livros até o fim, colocar o que eu acho necessário e relevante.]

Apesar de eu ser uma dessas pessoas de “coração frio”, que preferem os animais aos seres humanos, eu gostei muito desse texto. Expressa bem a forma das crianças verem o mundo. Sem meias palavras, sem enrolação, muito clara.
Eu identifiquei adultos ali. Na forma simples e objetiva de falar do que gosta, desgosta e pensa.


[e lá vai outro texto enorme – não venham me azucrinar, dizer que é muita coisa pra ler... imagina o trabalho que eu tenho digitando sempre um montão...?]


“O menino de sete anos chegou até o pai e pediu um dicionário.
O pai lhe botou na mão um dicionário escolar, bastante simples. A criança olhou, leu, sacudiu a cabeça:
- Ta difícil, pai, isso aí não interessa. Não tem dicionário pra criança?
Hoje deve ter, mas naquele tempo não tinha. Enquanto os adultos pensavam no que fazer, o menino decidiu:
- Eu vou escrever um, posso?
Claro que podia. Pegou-se um arquivo, que ainda existe, com folhas amareladas e sua caprichada letra de menino. O alfabeto ele conhecia, escrevia direitinho, e depois de uma semana chuvosa de férias saíram vários verbetes.
Alguns deles aqui vão:

Alface. Alface é uma verdura. A alface é de comer mas eu não como alface. Ela é verde na folha e branca no cabo. Minha mãe diz que salada faz bem pra saúde mas eu não como salada. Azar o meu.
Argola. A argola é um tipo de círculo. Ela é bem redonda. Eu vi na televisão que no circo tem argolas grandes e pequenas. Os homens do circo pegavam as argolas grandes, botavam fogo, e o tigre tinha que pular no meio. Coitado do tigre.
Amigo. Amigo é uma pessoa que gosta da outra. Daí é amigo. Eu sou amigo da minha família e da família da nossa empregada. A gente devia ser amigo de todo mundo. Mas às vezes não dá.
Afogado. Afogado é uma pessoa que se afoga. Na praia eu vi pessoas afogadas e os salva-vidas iam lá e salvavam elas. Os salva-vidas são pessoas que salvam as pessoas. Um homem que se afoga mas fica vivo é porque não tinha se afogado muito. Eu nunca me afoguei.
Bonito. Bonito é uma coisa que se chama de bonito. Por exemplo: uma pessoa que seja o contrário de feia é bonita. Eu, minha mãe, meu pai e meus irmãos somos todos bonitos. Ainda bem. Mas o mundo que Deus fez é o mais bonito de tudo.
Livro. Livro é uma coisa muito boa porque eu gosto de ler. Eu já li um monte de livros mas meu irmão pequeno rasga eles. Tem uns livros que são de histórias e outros que são de estudar. Eles já são feitos para isso. Meu pai escreve livros para estudar. Nós aprendemos lendo e estudando, mas também aprendemos com as professoras ou nem precisava existir professora.
Mala. Mala é uma coisa com tampa, parece uma caixa mas não é de madeira, é de couro. A mala serve para botar a roupa quando a gente vai viajar. Não gosto de olhar uma mala porque me lembro de que às vezes meu pai viaja e quando ele viaja eu tenho saudades dele. Ainda bem que ele sempre volta.
Ninho. Ninho é uma coisa que os passarinhos fazem para morar, para dormir, para botar os ovinhos e para ter os filhotes. Numa árvore da minha casa tem um ninho de passarinho. O ninho é feito de muitas coisas que eles vão juntando por aí, pedaços de pau, pedaços de pano, folhas secas e tudo isso. O ninho do joão-de-barro é bem diferente porque parece uma casa de verdade feita de barro. O ninho do joão-de-barro parece um iglu. O iglu é a casa dos esquimós que moram no gelo. Lá deve ser muito frio.
Seco. Seco é o contrário de molhado. Por exemplo: quando não chove fica tudo seco. Quando o sol fica raiando muitos dias tudo fica seco. Sem sol nada fica seco. Aí a mãe reclama que está tudo úmido. Úmido é um tipo de molhado. Mas o sol não pode raiar o tempo todo. Porque daí todas as plantas se queimam e então também tem que existir a chuva. Que é molhada.
(...)
Xixi. Estou botando essa palavra porque só conheço essa com x mas minha mãe disse que podia. O xixi é um líquido que sai da barriga da gente. O xixi é amarelo. O xixi é importante, porque se não onde íamos botar toda a água que a gente toma? Por isso é que todos fazem xixi.
Zebu. Essa também é uma letra que eu conheço poucas palavras. O zebu é um animal. É um tipo de boi. Ele tem uma cabeça, um corpo, quatro pernas, um rabo, dois olhos, uma boca, um nariz, um pé, outro pé. E mais dois pés. O mais importante nele é o coração. Depois uns homens chegam lá e matam ele e tiram a carne dele e comem. Isso eu acho muito esquisito. E meio triste. Mas se não fosse assim como é que a gente ia comer carne.
Zero. Eu lembrei outra palavra com essa letra, o zero. O zero não é uma palavra porque é um número. Mas número a gente também escreve o nome dele. Outro dia minha mãe disse que ela é um zero na cozinha. Eu não entendi direito isso. Nota zero parece que é quando alguém é preguiçoso na escola ou burro. O zero que eu conheço é um número assim meio redondo quase como um ovo. Um cara é um zero à esquerda quando não trabalha direito. Isso aí foi meu pai quem falou.”


E aí?
Quem se anima a fazer um desses também, com toda sinceridade, conhecendo o tanto de palavras que sabidamente às vezes é melhor nem dizer?

6 comentários:

Aline disse...

É incrível como as crianças podem ser geniais.
Como é que fomos perder a ingenuidade que tínhamos quando crianças?
Elas podem ser pequenas, mas muitas vezes sabem muito mais que nós sobre amor e amizade. Por isso que eu digo: - " CULTIVEM A INFÂNCIA DE SEUS FILHOS." Ela é uma fase preciosa.

Squar disse...

hahah achei muito divertidas as primeiras palavras, revelam o que eu mais gosto nas obras da Lya (não que eu seja um bom leitor dos livros que ela escreve... ok, de livros em geral ultimamente) porque ela consegue expressar as diferentes facetas do ser humano, fases da vida, sentimentos emoções dores e amores...
mas não gostei do fim, ela dramatiza a leitura, a alegria some como se o livro perdesse as cores
não que ela sejá uma má autora por causa disso, mas eu não gosto de como me sinto quando leio =)

.ana disse...

o drama final foi de autoria minha! hahahahhahahahhahahah

[sim, eu sou muito dramática ¬¬']

oras... é só pra fazer as pessoas pensarem. sim, eu gosto de dar um "chute no estômago" alheio. o ruim é quando fazem isso no meu, mas ninguém tá imune a tal coisa...

Squar disse...

heheh mas me refiro também ao texto, da Mala em diante, em especial.. ela passa da comédia da alface pra saudade do pai.. essa instabilidade emocional, por mais que incorporada em uma criança, me deixa muito inquieto
não é o tipo de leitura que eu busco em geral.. a emoção que eu quero é outra
mas quanto ao teu toque de drama eu compreendo um pouco heheh bem tua cara :P
beijos!

.ana disse...

ahoahoahoa
nossa, que análise séria!!

Anônimo disse...

Por que nao:)